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Novo post com curiosidades diversas de Hong Kong e da cultura chinesa.

    • Uma parte importante da cultura chinesa é a busca pela harmonia, princípio que vem desde a época de Confucio. Faz parte da harmonia corporal deixar o corpo se expressar e expulsar o que tem que sair. Se deu vontade de arrotar, cuspir ou soltar um pum, deve-se atender ao pedido do corpo e não prender. Por isso na China muita gente cospe no chão. Dizem que são as pessoas mais velhas que seguem isso à risca, que os jovens hoje em dia não fazem tanto. Aqui em Hong Kong, eles têm pavor desse hábito e cuspir no chão é proibido e sujeito à multa. No metrô às vezes escuto alguém limpando a garganta como se fosse cuspir. Ou seja: obedecem a lei, mas o hábito corporal não desaparece, nem que seja pela metade, sem a parte do cuspir. No entanto, se a guerra contra cuspir é declarada, não há legislação quanto a arrotos ou peidos. Então é super comum escutar as pessoas arrotando em público na maior altura. E eles não param ou se desculpam, seguem como se fosse nada, pois é algo absolutamente normal aqui. Até gente arrotando no microfone dando palestra eu vi. O pior foi uma atendente na biblioteca da escola. Toda vez que ia pegar um material emprestado após o almoço, ela me atendia soltando uns arrotinhos. Uma vez, eu peguei o livro e fiz uma pergunta, ela se levantou e se aproximou de mim para ver o livro na minha mão. Foi quando soltou o maior arroto na minha cara. Soube até o que ela comeu. Eu comecei a rir de nervoso e tive que sair correndo com receio de ela achar ruim ou de eu ter que explicar. Apesar de ser eu que estou na cultura dela, há coisas às quais não me adapto. Ela não deve ter entendido até hoje porque eu fiz uma pergunta e saí correndo antes de escutar a resposta…
    • Em toda cultura as cores são usadas para simbolizar e expressar determinados sentimentos e emoções, como luto, pureza, amor, etc. No entanto, na China a representação das cores é diferente da nossa. Branco simboliza luto. Amarelo é sorte, riqueza e a cor da realeza (na Europa a cor real é roxo). Vermelho é a cor da alegria e bastante usada em celebrações. Não só no ano novo chinês, mas é tradicionalmente a cor do vestido de noiva. Hoje em dia, com a influência ocidental, muitas noivas optam pelo branco, mas ainda vejo bastante noivas de vermelho posando para fotos pelas ruas de Hong Kong.
Noiva chinesa com vestido vermelho

Noiva chinesa com vestido vermelho

Noiva chinesa com vestido tradicional belíssimo

Noiva chinesa com vestido tradicional belíssimo

Até na publicidade o vestido da noiva é vermelho

Até na publicidade o vestido da noiva é vermelho

  • Como Hong Kong pertencia à Inglaterra, aqui não teve a política do filho único: os casais podiam ter quanto filhos quiserem. No entanto, as famílias costumam ser pequenas, se comparada à China tradicional. 1 ou 2 filhos por casal no máximo e alguns não têm filhos. Acredito que o custo de vida e o tamanho das moradias influenciam nisso. Assim como na China pós política do filho único, aqui tem um fenômeno de mimar os filhos (principalmente se for menino). Há até a expressão tiger mothers, ou mães-tigre, que defendem os filhos com unhas e dentes. No metrô, quando não há mais assentos disponíveis, é comum ver os pais ou avós em pé e a criança sentada! Mas não é porque é filho único que se mima. Espera-se que os filhos cuidem dos pais inclusive após a morte, fazendo rituais no hall do ancestrais (que merecem outro post). Penso que isso influencia na questão de querer agradar os filhos, para que eles façam esses cuidados.
  • Acredito que também pela questão da moradia pequena, não é muito comum ser convidada para a casa de um local. Mas se você for convidado, deve levar um presente embrulhado e os donos da casa não podem abrir na sua frente. Abrem depois e agradecem da próxima vez que encontrar. Os hóspedes se desculpam pela comida e o convidado tem que equilibrar as coisas, fazendo elogios. Mas não pode elogiar muito um objeto de decoração ou os hóspedes se sentem na obrigação de dá-lo para o convidado!
  • Em Hong Kong, aqueles que têm passarinhos como animais de estimação os levam para passear aos domingos. Saem com as gaiolas pela rua. Alguns tampam a gaiola com um pano escuro.
Levando o passarinho na gaiola para passear. A foto não ficou boa pois eu estava correndo atrás do homem para fotografar e ele continuava andando.

Levando o passarinho na gaiola para passear. A foto não ficou boa pois eu estava correndo atrás do homem para fotografar e ele continuava andando.

Uma característica marcante de Hong Kong é o cuidado obsessivo quanto à higiene. Eu acredito que é devido à mistura das culturas britânicas e chinesas. Juntou o cuidado dos britânicos quanto à higiene com o temor de que os habitantes da China, que estão vindo aos montes a Hong Kong, tragam hábitos arraigados em sua cultura, mas considerados danosos à saúde pela população local. Além do que, em um lugar muito populoso, as doenças infecciosas se espalham rapidamente.

Eu já falei como muita gente aqui anda com máscaras (veja aqui). Não é por causa da poluição, como pensei ao princípio. É para evitar pegar ou transmitir vírus. Isso começou em 2003, quando o surto de SARS saiu do controle e dizimou centenas de pessoas.

"Para manter boa higiene, não jogue lixo no chão nem cuspa"

“Para manter boa higiene, não jogue lixo no chão nem cuspa”

O aeroporto foi o primeiro lugar que chegamos, claro, e também onde logo de cara ocorreram os primeiros choques quanto a isso: metade dos funcionários usam máscara. Conversam e fazem tudo com elas. Todo mundo que chega tem que passar por um lugar de controle de saúde, no qual dois funcionários ficam observando as pessoas que chegam para ver se apresentam sintomas de viroses. Chris e eu estávamos de chapéu e tivemos que tirá-los para passar nesse controle. Eles também selecionam pessoas aleatoriamente para medir a temperatura e ver se a pessoa tem febre. Ainda não aconteceu conosco, mas fizeram com minha mãe quando ela veio no visitar. É tudo tão eficiente que chegam com o aparelho perto da pessoa, sem dizer nada, sem nem encostar na pele, e instantaneamente aparece a temperatura no aparelho. Acho que muita gente nem percebe que está sendo medido. Se alguém apresentar febre, deve passar por uma avaliação médica e pode até ficar em quarentena.

grande display no metrô ensinando hábitos de higiene (como lavar mão, cobrir a boca com lenço ao tossir, jogar esse lenço só nas lixeiras com tampas e usar máscaras)

grande display no metrô ensinando hábitos de higiene (como lavar mão, cobrir a boca com lenço ao tossir, jogar esse lenço só nas lixeiras com tampas e usar máscaras)

Além disso, coisas comuns dos chineses fazerem, são proibidíssimas em Hong Kong e dignas de multa: comer e beber no transporte público, jogar lixo e cuspir no chão (as razões merecem outro post, aqui).

Muitos chineses cospem nas lixeiras. Esse adesivo nas lixeiras do metrô diz: "cuspir espalha germes"

Muitos chineses cospem nas lixeiras. Esse adesivo nas lixeiras do metrô diz: “cuspir espalha germes”

Outra coisa é que desinfetam constantemente lugares em que muita gente põe a mão ou pé. É comum ver nos elevadores de prédios públicos e residenciais, a informação de que os botões são desinfetados a cada X horas (geralmente a cada duas horas! Será?). Até mesmo em jogos nos museus e carpetes de banheiro de shoppings.

Dentro do elevador cartaz com "desinfectado regularmente"

Dentro do elevador cartaz com “desinfectado regularmente”

Na entrada da porta do nosso edifício, tem até um capacho anterior ao tapete da entrada, com um cartaz explicando como limpar os pés, porque, afinal, é algo complicado. Os passos (que podem ser lidos numa tradução ruim ao inglês na foto abaixo), são: 1) pise nessa área por 2 segundos 2) pise no capacho 3) esfregue os pés no capacho 4) ande com cuidado 5) obrigado. E aí, entenderam como fazer direitinho?

Tapete desinfectante com explicações detalhadas para limpar os pés antes de entrar

Tapete desinfectante com explicações detalhadas para limpar os pés antes de entrar

O metrô, que transporta muita gente por dia, é ponto de atenção especial. Há diversos vídeos que pedem que você saia do trem e procure um funcionário caso não se sinta bem. Além disso, diversos avisos escritos e anunciados no sistema de som, dando instruções como: cubra a boca com a mão quando espirrar. Use máscara quando apresentar febre ou tosse. Não espalhe seus germes.

Display no metrô: "não espalhe seus germes- cuspa somente em um lenço de papel e jogue em uma lixeira"

Display no metrô: “não espalhe seus germes- cuspa somente em um lenço de papel e jogue em uma lixeira”

Acho que isso também influencia o fato de que, na minha percepção, eles não se tocam tanto. Por exemplo, aperto de mão ao conhecer alguém não é regra. Amigos não se abraçam ou beijam quando se encontram ou despedem. Quando cheguei e fui conhecer minha orientadora pessoalmente, ela não apertou minha mão nem nada. Fiquei o tempo todo da conversa pensando: ao sair estendo a mão ou não? Mas como “em Roma faça como os romanos”, segui o que ela fez, ou seja: nada. No entanto, como boa brasileira, sinto falta do afeto e tem hora que não aguento e falo para umas amigas: vamos nos despedir à la latina. E dou abraço. No princípio elas riam sem graça, mas agora até gostam e tem vezes que elas próprias tomam a iniciativa ao se despedir de mim! Adoro! Para mim, o afeto vale mais que os germes.

Alguns estrangeiros reclamam que Hong Kong tem muita burocracia. Como brasileira, estou acostumada à burocracia, mas realmente tem horas que fica difícil. Quando me mudei para cá, como acontece quando se muda de cidade ou país, tinha várias coisas para resolver: arrumar moradia, conseguir um plano de telefone, abrir conta em banco, resolver coisas na imigração, olhar plano de saúde, contratar internet… quase tudo levou um tempo enorme, pois tínhamos que pesquisar tudo, sem conhecer as empresas com antecedência. Por exemplo: primeiro tivemos que saber quais eram as empresas de telefonia, para poder pesquisar dentro de cada uma quais eram os planos e decidir por um.

Uma história que ilustra a burocracia sem sentido daqui, foi meu caso de abrir conta no banco.

Logo nos primeiros dias que eu cheguei, tinha que fazer a matrícula na universidade. Tinha sido enviado um email com os documentos que eu tinha que levar, entre eles, o número de uma conta de banco em Hong Kong, em meu nome, para eu poder receber a bolsa.

Então antes de fazer a matrícula eu tinha que abrir a conta. Pensei em abrir no HSBC, pois é ao mesmo tempo um banco local (o H da sigla é de Hong Kong) e que tem agências no Brasil.

Fui à agência desse banco que fica no shopping center perto da universidade. Peguei a senha e fiquei uma hora para ser atendida. Um funcionário perguntou o que eu queria fazer, viu meus documentos e falou que era só esperar.

Quando sentei à mesa da gerente, falei o que queria, ela me explicou o tipo de conta, e iniciamos o processo de abrir conta: ler e assinar contratos e escanear documentos. Eu tinha levado o comprovante da residência na universidade, que era o único que eu tinha em Hong Kong, pois ainda não tinha encontrado apartamento.

Mas como minha residência não é permanente, mas temporária, ela pediu um endereço em meu nome no Brasil ou outro em Hong Kong, pois a residência universitária é considerada como algo temporário.

Isso quando eu já estava sentada com ela há mais de 30 minutos…

Eu expliquei que não tinha comprovante do Brasil comigo: eu não tenho casa no Brasil. Se eu te fornecer um endereço de onde eu morava, vai ter outra pessoa morando lá agora.

Ela respondeu que mesmo assim precisavam do comprovante de endereço no Brasil. Eu argumentei que seria totalmente sem sentido fornecer um endereço em que estaria morando outra pessoa, já que eu tinha me mudado para Hong Kong.

Ela disse que era a regra. Eu então disse que podia usar a própria carta de aceite que a universidade em Hong Kong tinha me enviado. Mas isso havia sido há 6 meses e ela acrescentou que o comprovante deveria ter sido emitido no máximo há 3 meses. Isso seria impossível, já que eu tinha saído do meu apartamento mais de 3 meses atrás. No meu último mês no Brasil eu já tinha saído do meu apartamento e ido para casa da minha mãe, mas eu não tinha nada no meu nome com o endereço dela ou qualquer outro endereço. E tinha que ser em meu nome.

Eu achei que o banco estava exagerando. Saí falando: vocês não vão ter minha conta então, vou abrir em outro banco.

Fui então a um banco chinês, que tem uma agência dentro da própria universidade. Ainda na fila, veio um funcionário conversar comigo e verificar meus documentos. Aí a mesma história: precisava de um endereço no Brasil emitido no máximo há 3 meses. Quando expliquei a impossibilidade de tal documento, ele disse que a solução era eu pedir que a universidade fizesse uma carta para meu endereço no Brasil, com data de 1 mês atrás e trazer a carta ao banco.

Ou seja, basicamente era para eu pedir para a universidade emitir uma carta falsa como comprovante de um endereço em que eu não moro…

O funcionário do banco, acrescentou:

Mas você não vai querer abrir conta conosco. É mais para estudantes chineses.

Eu entendi isso como um: nós não estamos interessados em sua conta.

Fui ao escritório responsável pela matrícula na Universidade e a senhora tentou me acalmar: todos os estudantes internacionais têm este problema. Você pode fazer a matrícula e depois traz o número da conta.

Pensei então: se todos têm este problema, porque mandam um email dizendo que precisava abrir a conta antes da matrícula?

Um problema a menos, mas ainda não resolvia a questão de como eu abriria a conta. Pedi a carta mesmo assim e, depois de esperar um pouco, ela veio… com a data de 6 meses atrás, ou seja, só uma cópia da que eu já tinha. Não sei se foi um problema de comunicação, só sei que não consegui abrir a conta. Perguntando a outros estudantes estrangeiros como fizeram, eles diziam que apresentaram a carteira de motorista do país de origem, que continha o endereço, ou uma conta emitida há menos de 3 meses. Ninguém tinha exatamente meu problema. Alguém sugeriu: tente um banco mais internacional.

Fui então ao Citibank, que tinha uma agência também dentro do shopping perto da universidade. Não falei nada do endereço, apresentei meu comprovante da residência universitária e aceitaram. Ainda abriram uma conta de estudante, que tem uma série de vantagens no meu caso. Que alívio!

Foram três dias inteiros só por conta de tentar abrir uma conta no banco, por conta de uma regra que no meu caso não fazia sentido!

Mas a alegria durou pouco. Uma semana depois, a moça que abriu minha conta disse que eu precisava apresentar um comprovante de endereço no Brasil emitido há no máximo 3 meses. Ela explicou que era novata e não sabia que precisava de outro comprovante. Quando expliquei que não tinha como fornecê-lo, ela disse que entraria em problemas se eu não resolvesse. Nessas alturas eu já tinha um endereço do apartamento que ia alugar. Perguntei se poderia usá-lo, como um segundo endereço em Hong Kong. Ela consultou alguém e me confirmou que sim. No entanto, eu não tinha ainda nenhuma conta no meu nome, pois nem tinha me mudado ainda. Ela então disse que o próprio banco me enviaria uma carta, que eu deveria levar ao banco, após recebê-la. Ou seja, no final das contas só consegui abrir a conta por conta de um erro pessoal e o banco mesmo teve que me enviar o comprovante de endereço que eu precisava apresentar para o próprio banco…

Alguém entendeu alguma coisa? Eu até agora não.

Mesmo com tanto banco e instituições financeiras em Hong Kong, abrir uma conta aqui foi bem complicado.

Mesmo com tanto banco e instituições financeiras em Hong Kong, abrir uma conta aqui foi bem complicado.

Conta a lenda que no Brasil não há vulcões, terremotos, furacões ou outros fenômenos naturais porque os políticos que temos já são um desastre. Lembrei dessa piada porque, além do conturbado momento político, encarei meu primeiro furacão aqui em Hong Kong.

Dizem que todo ano, entre junho e novembro, Hong Kong é atingida por entre 4 e 6 furacões. Mas, se ano passado eles passaram longe, em 2016 não falta emoção: dois furacões em apenas uma semana!

No início da semana tivemos o furacão Sarika, que ocasionou fortes chuvas e ventos e alagamentos em partes da cidade. Já hoje está passando bem perto daqui o Furacão Haima, que passou primeiro nas Filipinas, e arrasou grande parte, e por isso vai chegar com intensidade reduzida aqui. Numa escala que vai até 5, o Haima atingiu as Filipinas com intensidade 4 e Hong Kong com 2.

Confesso que minha inexperiência é tanta que nem sabia que eles eram furacões. Isso porque aqui são chamados de tufões. Aprendi que furacão, tufão e ciclone são a mesma coisa. O mesmo fenômeno meteorológico recebe diferentes nomes de acordo com o local onde acontece. Furacão é no Oceano Atlântico ou nordeste do Pacífico, Tufão é no Noroeste do Pacífico e Ciclone é no Oceano Índico e Pacífico Sul.

Mapa do Haima. fonte: http://www.hko.gov.hk/

Mapa do Haima. fonte: http://www.hko.gov.hk/

Hong Kong tem um sistema próprio de alarmes, de acordo com a distância que o furacão passa daqui. A escala é 1, 3, 8 e 10 (sendo 10 passando diretamente sobre Hong Kong- não me perguntem onde estão os outros números…). O Sarika foi alarme 3. Já o Haima, chamado de Super Furacao, foi 8 (o mais comum é ter 8 em novembro). Então as medidas de precaução foram mais fortes.

Página do aplicativo do observatório de Hong Kong com o informações metereológicas, como o alarme 8 e a velocidade do vento

Página do aplicativo do observatório de Hong Kong com o informações metereológicas, como o alarme 8 e a velocidade do vento

Dentre as instruções para a população estavam:

Não ficar perto de rios ou do mar.

Aliás, recomendam ficar dentro de casa.

Não ficar perto de janelas e afastar móveis ou objetos de valor das mesmas. Tenha um lugar B para se abrigar, se as janelas quebrarem.

Aulas e eventos foram cancelados. Órgãos governamentais ficaram fechados. Ferries não funcionaram. Vários voos cancelados. O metrô correu com menos frequência em alguns trechos.

No dia anterior, na quinta, que aliás foi um dia muito bonito, com sol, as prateleiras dos supermercados ficaram vazias e as filas grandes.

Prateleiras vazias em supermercado em Hong Kong na véspera do furacão Haima

Prateleiras vazias em supermercado em Hong Kong na véspera do furacão Haima

O mais engraçado foi um e-mail da universidade, com recomendações no dia anterior: estoquem macarrão instanteneo (noodles)/comida. Hahaha esses chineses são fissurados em noodles.

Email recebido a universidade com recomendações, como estocar noodles.

Email recebido a universidade com recomendações, como estocar noodles.

Isso porque mesmo o furacão só passando perto, ele se faz sentir pelo vento e chuva fortes. O vento fazia um constante ruído que, para mim, lembra o de um liquidificador. Imagine um liquidificador no outro quarto, ligado alternando em diferentes velocidades. Para mim é tal qual.

Coincidentemente, o Sarika atingiu mais o sul de Hong Kong, onde estávamos naqueles dias. Já o Haima sentiu-se mais forte no norte, que é onde moramos. No primeiro saímos para gravar vídeos e ficamos ilhados, tendo que nos esconder na reentrância de um edifício (mesmo assim ficamos ensopados) e esperar um tempo até podermos vencer o vento e entrar. No segundo ficamos olhando pela janela. As árvores perto da nossa janela da sala balançavam tanto, que ficamos com receio de caírem e atingir o prédio. Realmente, o galho grande de uma delas caiu, mas para o outro lado, ainda bem. Escutamos o barulho de algo atingindo a janela do quarto. Não vimos o que foi, mas não quebrou anda. Na nossa rua vários galhos e árvores caíram, arrancadas com raiz e tudo. Não conseguimos nem abrir a janela, mas tentamos fazer alguns vídeos.

O Haima durou umas 11 horas, durante as quais as ruas ficaram desertas. O vento chegou a 110 km/h. Até agora, uma morte foi registrada, mas os prejuízos com fechamentos do comércio, estabelecimentos e da bolsa de valores, estão estimados em mais de U$600 milhões.

Confesso que o primeiro sentimento ao descobrir isso foi: uau, que legal, vou passar pela experiência de um furacão. Já durante o furacão me deu certo receio e vi o quão ridiculamente frágeis somos perante a força da natureza.

No dia seguinte, foi possível ver várias árvores que não caíram, mas ficaram tortas e estão sendo escoradas para não cair.

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árvore cortada ao meio

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Essa caiu com raíz e tudo

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Árvore e placas derrubadas pelos ventos do furacão Haima

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Várias árvores ficaram tortas…

...e tiveram que ser escoradas

…e tiveram que ser escoradas

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Sombrinha não segura chuva e vento de furacão…

Após mais de um ano vivendo em Hong Kong, chegou a hora de compartilhar algumas dicas de dentro, além das que se encontram nas guias turísticas.

Em primeiro lugar, para quem está viajando pela Ásia, acredito que vale a pena passar por aqui. A cidade é bonita e interessante. As imagens mais divulgadas de Hong Kong são os arranha-céus, mas 70% do território é natureza, com mistura de montanhas e mar. Além do mais, para quem pretende ir à China, começar por Hong Kong pode ser uma boa ideia, para ir se acostumando aos poucos, já que Hong Kong mescla culturas e, como eles mesmo gostam de dizer, faz a ponte entre ocidente e oriente.

Dentre as principais atrações estão o Grande Buda e o Pico Victoria.

  • O Grande Buda é a maior estátua em bronze do Buda ao ar livre. O que me parece mais legal é o passeio de teleférico para chegar lá. A vista é muito bonita. O que aprendi para agilizar e aproveitar mais nesse passeio é: compre o ticket online antes de ir. As filas são enormes. Se puder evitar a primeira, que é para comprar os ingressos, já se ganha tempo. Há um combo com três atrações lá em cima, que são meio fraquinhas, talvez valha a pena só se estiver com crianças. Eu comprei só para agilizar, pois o combo permite ir na fila mais rápida. É um pouco mais caro, então para evitar ter que gastar tempo e dinheiro: compre o ticket pela internet.
Esse passeio de teleférico ao Grande Buda é considerado um dos 10 mais bonitos do mundo

Esse passeio de teleférico ao Grande Buda é considerado um dos 10 mais bonitos do mundo

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  • Outra dica é comer no monastério que tem lá em cima, o bonito Po Lin Monastery, perto do Buda mesmo (e não na ruazinha cheia de fast foods que se vê ao sair do teleférico). O monastério não pode divulgar o restaurante, então a dica é quase boca a boca. Paga-se por pessoa para um menu vegetariano com 5 pratos (comida chinesa). Uma das melhores comidas que já encontrei aqui. Além disso, guarde o recibo, pois quando subir ao Buda, seria preciso pagar para entrar dentro da estátua (é opcional), mas mostrando o recibo, é grátis.
  • Já no Victoria Peak, que fica na ilha de Hong Kong e tem uma vista linda da baía (talvez a imagem mais conhecida de Hong Kong), pode-se pegar um bondinho para subir (ou ir a pé para quem tem tempo e energia). Mais uma vez tentam vender um combo casando a entrada para um terraço com vista 360o. Esse não vale a pena mesmo. É mais caro e pode-se ter praticamente a mesma vista de outro terraço, a Peak Gallery, gratuitamente. No bondinho, tente sentar do lado direito pois há um ilusão óptica na qual os prédios parecem inclinados em relação ao chão.
Esse é o bondinho (tram) que sobe e desce ao Victoria Peak

Esse é o bondinho (tram) que sobe e desce ao Victoria Peak

Vista desde o Pico Victoria

Vista desde o Pico Victoria

  • O star ferry é uma maneira legal e tradicional de cruzar da ilha para a península. Você pode usar o cartão de transporte Octopus (veja aqui), ter uma experiência tradicional e apreciar uma linda vista tanto da ilha quanto da península. Se fizer na hora do pôr-do-sol, dá ver os prédios iluminados.
  • Nosso lugar preferido em Hong Kong não está na lista das principais atrações, mas para quem tem cerca de duas horas livres vale a pena. É a Chi Lin Nunnery, onde há um lindo jardim, com construções tradicionais e plantas do mundo todo, como bonsais e até uma bougainville do Brasil. Atravessando uma ponte, chega-se a um monastério de madeira bem bonito. Um passeio tranquilo e agradável.

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  • Em relação às compras: para quem vai à China, os preços em Hong Kong não valem tanto a pena, pois lá é mais barato. Há dois mercados de rua, para comprar todo tipo de bugigangas: o Temple Street Market, que é noturno, e o Ladies Market, diurno. Praticamente o que se vê em um, acha-se no outro. Encontram-se de tudo um pouco: lembrancinhas, leques, palitinhos, jogos de chá, roupas, bolsas, malas e eletrônicos. A qualidade é… de produto Made in China. Não há garantia e bolsas e produtos de marca são falsificados. Para quem gosta de pechinchar e quer levar lembrancinhas, é um paraíso. Não recomendo eletrônicos. Nunca compre algo pelo primeiro preço que eles pedem. Mesmo quem não fala inglês pode pechinchar (algumas vezes nem os vendedores falam): usam uma calculadora para informar os preços. A coisa vai assim: você pergunta o preço, eles dizem algo, você deve fazer cara de desinteresse. Eles então podem dar um preço mais baixo ou perguntar quanto você oferece. Enquanto na China a recomendação é oferecer 10% do preço inicial (é sério), em Hong Kong eles não abaixam tanto. Sugiro oferecer metade. Eles vão recusar. Aí você deve sair andando e eles vão começar a gritar preços. Não tenha medo pois eles não vão vender por um preço que seja prejuízo. Se você quiser levar mais quantidade do mesmo produto, pergunte o preço de um e faça a proposta dando um generoso desconto. Jamais compre na primeira barraca que ver o preço. Pergunte bastante e escute o preço que vão gritar pra você quando você sair andando, para ter uma noção de por quanto estão preparados para vender uma unidade. Pense sempre em quanto quer pagar pelo produto e vá negociando. Por exemplo: umas sombrinhas com bonequinhas, eu perguntei o preço e em algumas barracas falaram HK$45. Quando achei uma por HK$39, ofereci comprar 5 por 150, saindo 30 cada. Negócio fechado!
  • Além disso, como os preços de imóveis são ridículos (veja aqui), lembre-se que lojas e restaurantes no térreo e com porta para rua, pagam mais caro o aluguel e isso pode refletir nos preços. Os estabelecimentos comerciais em andares superiores ou dentro de galerias, menos à vista, geralmente têm melhores preços.

Sigo compartilhando alguns costumes e tradições ligados à superstições (veja o primeiro post sobre isso aqui). Logo após fazer o primeiro post, descobri por acaso que a razão de que vários edifícios altos aqui terem um buraco ao meio (abaixo), é por conta do Feng Shui. Isso porque quando um prédio é construído entre a montanha e o mar, obstrui a passagem do dragão que vive na montanha até o mar. Então, esse buraco é para que o dragão possa passar e não derrubar o prédio.

é comum ver estes prédios com buracos no meio, em Hong Kong. Foto: shottapaul/Flickr

é comum ver estes prédios com buracos no meio, em Hong Kong. Foto: shottapaul/Flickr

Esse site (em inglês) dá mais detalhes.

A numerologia também é observada por aqui e levada em conta pelo Feng Shui. O curioso é que a numerologia chinesa se baseia no som das palavras. O mandarim e o cantonês são línguas tonais, ou seja, todas as palavras possuem só uma sílaba e dependendo como se pronuncia, significam coisas distintas. Assim, as mesmas sílabas usadas para os números, se pronunciadas um pouco diferente, significam outras coisas. Exemplos em cantonês:

2 soa como “fácil”

3 como “vida”

4 como “morte”

8 como “prosperidade”

13 como “por toda a vida”

24 como “fácil de morrer”

28 como “prosperidade fácil”

138 como “prosperidade por toda a vida”

Isso explica o mistério do elevador no post sobre moradia em Hong Kong. Muitos prédios não possuem o 4o andar, nem o 14o, o 24o etc. Isso porque, como o número 4, tanto em mandarim quanto em cantonês, soa como a palavra “morte”, eles não gostam de usá-lo para não atrair má sorte. Quem iria querer morar no andar 24, “fácil de morrer”? O curioso é que não eliminam os andares da dezena 40, como 41, 42, 43, 45, 46 etc, e não é porque a pronúncia é quarenta e não quatro, pois em ambas línguas, falam-se as dezenas com o número e a palavra dez na frente. Por exemplo, quarenta e um é dito assim: quatro dez um. Talvez achem que eliminar toda uma dezena de andares traria muita confusão.

No elevador de um prédio de 70 andares. Ou quase. Na verdade,  reparem que não tem todos os andares, mas essa estória fica pra outro post.

No elevador de um prédio de 70 andares. Ou quase. Na verdade, reparem que não tem todos os andares, mas essa estória fica pra outro post.

Seguindo o mesmo raciocínio das palavras que soam igual outra coisa, os chineses não gostam de presentear com relógios, pois esta palavra soa como a expressão “ir ao funeral de alguém”.

A entrada principal da universidade em que estudo, CityU possui 5 portas de vidro. Há uma lenda na qual, quem passar pela porta do meio, terá a sua média global geral de notas nunca superior a 3 (em uma escala de 0 a 5, a média de 3.5 costuma ser o mínimo aceitável para bolsas e oportunidades acadêmicas). Eu gosto de ficar observando e vejo que são poucas as pessoas que usam essa porta. E fico imaginando que quem usa é porque não sabe da lenda.

Os chineses levam muito a sério histórias de fantasma. Se há relatos de barulhos estranhos ou atividades inexplicáveis em algumas residências, ou se houve uma morte particularmente ruim, esses lugares podem ser considerados assombrados. Aí ninguém quer morar lá. O bom é que os preços dessas residências caem. Em um lugar com o custo de vida mais caro do mundo, isso pode ser uma mão na roda para quem não tem medo de fantasmas. Há até um website que lista estas residências (em inglês, veja aqui)

Ah se eu soubesse disso antes de ter alugado o apartamento! Para pagar menos, eu até dividiria o teto com um fantasma. hehehe

Não dá para falar da cultura chinesa sem falar de superstições. Porque elas fazem parte da cultura chinesa de forma tão arraigada, que afetam a vida mesmo de quem não acredita nelas. Compartilho algumas tradições e curiosidades que, mesmo que não sejam seguidas por todos os chineses, são interessantes para refletir sobre o modo de ver a vida conectada com o transcendental. Nesse post falo do horóscopo chinês e do Feng Shui e tenho que fazer ainda um segundo post sobre o tema.

O horóscopo chinês é diferente do que conhecemos, pois os signos são 12 e vão por ano e não por mês. Os signos são representados por animais (Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Cão e Porco). Há também 5 elementos (madeira, fogo, terra, metal e água) que vão se revezando cada vez que um animal repete. Por exemplo, macaco de madeira, 12 anos depois é macaco de fogo, etc.

Um fato interessante é que se alguém pergunta seu signo pode ser que esteja querendo saber sua idade. Como os signos só se repetem a cada 12 anos, se você fala, por exemplo que é macaco, no ano do macaco, eles calculam que você pode ter então 12, 24, 36, 48 ou 60 anos. Assim, fica fácil adivinhar a idade.

O mais interessante é que, devido às personalidades atribuídas a cada signo, eles preferem alguns e desconfiam de outros. E isso tem consequências práticas.

O signo de dragão é de longe o preferido e, dizem algumas fontes, que nos anos desse signo aumenta a taxa de natalidade na China, enquanto que nos anos do tigre, que são crianças consideradas difíceis, a taxa cai.

O ano de 1966 registrou menos nascimentos em Hong Kong do que os outros anos na década de 60, porque era um signo considerado particularmente ruim, gerador de crianças incontroláveis: o cavalo de fogo.

Algumas grávidas optam por cesariana para garantir que o bebê nasça no signo que preferem. Em janeiro de 2013 o número de cesarianas na China aumentou, porque era o último mês para que os bebês nascessem sob o sino do dragão.

Além disso, alguns eventos importantes na vida dos chineses são marcados de acordo com o horóscopo. Um colega que estava terminando o doutorado quando eu entrei, informou que ia se casar uma semana antes do prazo final de entrega da tese. Eu perguntei: porque você não marcou o casamento para a semana seguinte, quando já teria entregue a tese? Pareceu-me masoquismo fazer coincidir dois eventos que consumem muito tempo e energia emocional. Ele respondeu que tinham consultado um especialista e que o horóscopo revelou que aquela era a semana mais propícia para que o casamento desse certo. Vale ressaltar que ele é um acadêmico que está fazendo pós-doutorado.

Os meses de agosto e setembro são considerados de má sorte em Hong Kong. Segunda a tradição, os portões do inferno são abertos nesses meses e os chineses cuidam para não ofender os espíritos que perambulam pela terra. Assim, eles evitam se casar e mudar de trabalho e casa nessa época.

Cartaz na universidade: "se você não fechar a porta, a má sorte vai entrar". Depois de vários cartazes pedindo para o povo fechar a porta de um laboratório, resolveram apelar para a superstição para ver se funciona.

Cartaz na universidade: “se você não fechar a porta, a má sorte vai entrar”. Depois de vários cartazes pedindo para as pessoas fecharem a porta de um laboratório, resolveram apelar para a superstição do povo para ver se funciona.

Já o Feng Shui é uma técnica de harmonia das construções, que alcançou o mundo inteiro. A ideia é que o ser humano deve viver em harmonia com a natureza. Há uma série de regras na hora de construir edifícios e de como arrumar o interior de imóveis. O ideal é construir perto de rio e com o fundo protegido por montanha.

Consulta-se o Feng Sui para decidir o lugar onde se abrirá um negócio ou se construirá um templo ou casa. Inclusive, o compasso foi inventado na China não para navegar, mas para ser usado no Feng Shui.

Além de onde construir, a técnica determina o material principal da construção, sua forma, esquema de cores, o posicionamento de portas, janelas e móveis, e até onde flores ou souvenires devem ser colocados.

Como Hong Kong não tem tanta alternativa de lugares para construir, devido à sua geografia montanhosa, as regras do Feng Shui se adaptaram um pouco. O posicionamento de espelhos hexagonais ajudaria a proteger contra o mau olhado e, na falta, de rio, espelhos d’água são usados para atrair prosperidade. Uma breve caminhada na área central de Hong Kong, que reúne sede de vários bancos, permite perceber a influência do Feng Shui: abundam espelhos e fontes d’água.

Estima-se que Hong Kong tenha mais de 10 mil especialistas em Feng Shui (porque na China pós revolução cultural, essa técnica foi proibido, assim como quase tudo considerado supersticioso, enquanto em Hong Kong pode-se praticá-la legalmente). Estes são sempre consultados, mesmo cobrando caro.

Há uma história da loja britânica Marks & Spencer que, quando abriu em Hong Kong, não levou em consideração os princípios do Feng Shui. O negócio não estava indo bem, então os donos resolveram chamar um especialista, que recomendou colocar algumas luzes em lugares estratégicos, um tanque com peixes e até tartarugas de madeira (!). Só então o negócio prosperou…

Aguardem a sequência desse post!

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