Muito se fala sobre as vantagens de se morar no exterior: ter experiência de vida, praticar outro idioma, alargar os horizontes, ver a própria cultura de fora, adquirir flexibilidade, tolerância, adaptabilidade, etc.

O outro lado da moeda é menos comentado: como adquirimos tudo isso. Por 6 anos fui responsável pela Assessoria de Relações Internacionais de uma faculdade em Belo Horizonte e sempre dizia aos estudantes interessados em intercâmbio, que nem tudo são flores: não há crescimento sem sofrimento. Acredito que essa experiência não é para todo mundo em qualquer momento. Claro que todos podem se beneficiar da experiência mas é preciso estar preparado e aberto para se sentir em desconforto. Mudar para um lugar é diferente de visitar como turista. Quando viajamos a um lugar não precisamos passar por processos cotidianos como montar casa, contratar serviços, etc. Quando selecionava os estudantes para intercâmbio eu via que alguns, embora desejassem a experiência, não estavam dispostos ou preparados para deixar sua zona de conforto.

Mudar para outro país traz à tona diversos sentimentos. É uma verdadeira montanha-russa de emoções. Há um gráfico de M Barker, que ilustra bem isso. Quem já viveu, pode confirmar.

adapcatacao cultural

Eu já morei nos EUA, na Espanha e me mudei há pouco mais de um mês para Hong Kong. Posso dizer que o processo inicial de me encontrar em uma cultura que não é a minha, não foi ficando mais fácil. Claro que as experiências anteriores me ensinaram alguns truques que facilitam a vida. Mas o processo tem sido emocionalmente desgastante. Talvez seja também porque a cultura asiática é mais distante da minha cultura latina, do que a cultura norte-americana ou europeia. Mas isso era exatamente uma das coisas que mais me atraíam em vir pra cá: experimentar algo totalmente novo. Só que isso não minimizou o choque.

welcome to hong kong

Mas o que significa exatamente viver o desconforto?

Claro que há diversos fatores que influenciam no grau de desconforto: o tempo previsto de permanência (aguentar uma situação sabendo que serão 6 meses é diferente de pensar pro resto da vida), a fluência no idioma local, se muda sozinho ou acompanhado, se o objetivo é estudar ou trabalhar, se já se conhecia o lugar antes, se há amigos prévios vivendo no novo local, se já se chega com moradia definida, o que está acontecendo com a família e amigos no país de origem (em outras palavras, o que está perdendo), etc, etc

Mas no geral, mudar para o exterior significa:

  • Evitar o desespero ao chegar em um lugar onde nada te é familiar. As ruas, a comida, as pessoas… É não saber como fazer algumas coisas básicas, como: comprar ticket de metrô, pagar conta em uma loja ou restaurante, dar gorjeta, etc
  • É ver abaladas várias coisas que você dá como sentado. A maneira de fazer as coisas do dia a dia em outra cultura, é diferente. Pode ser o modo de lavar os pratos, a maneira de interagir com as pessoas ou utensílios usados para comer. E não poder se desesperar quando acha que o país complica demais para fazer algo que em sua cultura é muito mais simples. Aliás, é comum ficar comparando tudo com nossa cultura: no meu país não é assim, lá é _______(diferente/melhor/pior).
  • É ficar perdido. Várias vezes. Ainda mais se as indicações estiverem escritas em idioma que não entende. A tecnologia ajuda bastante, mas ainda temos que tirar o mapa ou aplicativo da bolsa toda vez que alguém tenta explicar onde é algo. É escutar um endereço e não ter a mínima ideia de como chegar lá e gastar tempo analisando o mapa e meios de transporte. As ruas, os lugares demoram um pouco para se tornar familiares.
  • É aguentar a burocracia de papéis e visitas a órgãos públicos até ter todos os documentos em ordem. É ter que decorar novos números de telefone, identidade, etc.
  • É ter que ter muita muita muita paciência. Com o lugar em si, mas principalmente consigo mesmo. Quando errar o caminho, quando não conseguir entender algo, quando não conseguir tomar uma decisão, pois não conhece todo aspectos.
Estava escaneando em um computador com a interface em inglês, mas ele me sai com esta pergunta. Fiz uni-duni-tê para escolher, mas deu errado e tive que começar tudo de novo!
Estava escaneando em um computador com a interface em inglês, mas ele me sai com esta pergunta. Fiz uni-duni-tê para escolher, mas deu errado e tive que começar tudo de novo40
  • É pedir uma comida em um restaurante tendo mais ou menos uma ideia do que pode vir e quando chegar, vê que não nem parece com o que pensava. É todo dia viver na incerteza do que vai comer e experimentar sabores e texturas novas, algumas não muito agradáveis.
  • É saber que provavelmente fazer algumas coisas vai demorar muito mais que no próprio país. Até nos acostumar, toda ida ao supermercado é uma verdadeira experiência exploratória. Eu gastei um dia inteiro e tive que ir a 3 bancos diferentes para conseguir abrir uma conta e, mais de duas semanas depois, ainda não tinha acesso à ela (leia essa saga aqui).
  • É não saber onde encontrar as coisas. Quando estamos em nossa cidade, sabemos aonde ir quando queremos algum produto. Em Barcelona passei um mês procurando um cosmético que no Brasil encontro facilmente nas farmácias, sem saber como era o nome em espanhol e sem que ninguém entendesse o que eu queria.
  • É não encontrar algumas coisas mesmo. Já entrei em dezenas de lojas tentando encontrar condicionador sem enxágue. Simplesmente não existe (minha explicação é que, como o cabelo no geral aqui é liso, não resseca tanto e não precisa do cuidado extra. Ou é questão de hábito mesmo, sei lá). Vou ter que importar ou viver sem. Aliás, “aprender a viver sem” é comum. O que é essencial para a gente pode não fazer sentido na outra cultura e o que é essencial para eles a gente pode nem achar útil. Quase ninguém aqui tem forno em casa, mas todos têm panela de arroz elétrica. Hã?
  • É estar disposto a mudar hábitos, pois alguns gestos, expressões e atos podem ofender na cultura em que se está.
Esse pessoal pode estar dando boas vindas ao Hall 9 para todo mundo, exceto aos brasileiros. rsrs
Esse pessoal pode estar dando boas vindas ao Hall 9 para todo mundo, exceto aos brasileiros. rsrs
  • É tentar achar o equilíbrio entre adaptar-se à cultura em que escolheu viver e respeitar seus próprios valores.
  • É pagar mico, dar manota, ficar sem entender, usar gestos, apontar para coisas, baixar aplicativos de tradução, etc. (já tenho uma seleção aqui que vou compartilhar nos próximos posts).
  • É não ter ideia se algo é caro ou barato. A tendência inicial é ficar convertendo preços e comparar: mais caro ou barato que o Brasil. Mas isso não quer dizer nada, pois o custo de vida é diferente em cada lugar. O que tem que saber é comparar o preço com outros lugares do mesmo país: a comida é cara não se no Brasil 5 pessoas comem com aquele valor, mas se você sabe que em outro restaurante na rua de trás, o mesmo prato é a metade do preço.
  • É sentir saudades e aguentar dias em que a única coisa que você quer é comer arroz e feijão, poder falar sua língua, abraçar seus velhos amigos que te conhecem e te entendem desde sempre e ganhar um cafuné da mãe.
(quando encontramos um pedacinho da nossa terra então, a saudade aperta. Claro que gritei para banda: sou brasileira)

Bom, minha intenção não é assustar ou desmotivar ninguém. Pelo contrário, sou incentivadora do “sair da zona de conforto”. Esses choques culturais são mais na fase inicial. Após algum tempo, você não só encontra os produtos, conhece a comida e encontra lugares de olhos fechados, como acaba até dando informação. Aguentar o desconforto inicial nos dá uma sensação de que vencemos. Até rimos dos apertos iniciais. E quando superamos isso e nos adaptamos à cultura, começamos a desfrutar.